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No dia 8 de março, dispense a rosa!
March 4, 2009, 4:18 am
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dispense

Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: “parabéns”.

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a  “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a — afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis. 

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas.  Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger.  Mas, bem,  segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” — o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”.  A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades.  Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas.  Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…).  Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte.  Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.

Autoria: Marjorie Rodrigues / Organização: Comunidade Feminismo e Libertação / Saiba mais sobre a campanha.

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13 Comments so far
Leave a comment

Women shouldn’t be oppressed! Violence against women is disgusting. Hope for a better world in the near future!

Comment by Catarina Anjos

[…] – No dia 8 de Março, dispense a rosa! […]

Pingback by Dia de Nós, Mulheres « O Peso e a Leveza

que texto maravilhoso! parabéns!

Comment by juliana

GRAAAANDE garota!

Comment by Camila

Belíssimo texto! Como seria bom se várias mulheres pudessem ter acesso a ele e entender o que é “não aceitar essa rosa”. De qualquer forma, parabéns… pelo texto!

Comment by Davidson Maurity

Eu diria que ao mesmo tempo que alguns parágrafos suas idéias abriram a minha percepção, outros eu notei que ela se fazia meio estreita.

Uma crítica bem superficial claro, logo só posso agradecer pelos primeiros e atentar para os últimos (o que implica em muita coisa, mas de novo, é um comentário superficial).

Comment by Ygor

Marjorie,
Excelente a correlação que vc demonstra existir entre a condição feminina e a hipocrisia simbolizada pela rosa!

Como afirmei no blog de Denise Arcoverde, não sou radical com relação a meu marido no dia 8 de março pois ele sempre dá mostras de que procura se livrar de ranços machistas. Por isso, aceito a rosa.

Mas foi muito bom ler seu artigo. Eu não tinha me dado conta de como é ampla a simbologia da rosa e o quanto ainda existe de machismo camuflado nela.

Ainda assim, penso que aceitar a rosa pode ser uma boa estratégia (dependendo do caso, claro!) para iniciarmos um papo muito sério com os homens do nosso entorno.

Abração.
Maristela.

Comment by maristela.simonin

[…] Assino cada frase dita por ela. E transcrevo aqui o parágrafo final do texto intitulado “No dia 8 de março, dispense a rosa!“: “Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, […]

Pingback by Ainda sobre o 8 de março | Maísa na Blogosfera

Maravilhoso o texto! Pena que eu não li antes para mandar pra todas as minhas amigas.

Comment by Aline de Barros

Você parece ser uma pessoa extremamente amarga, além de ter apresentado uma ótica essencialmente feminista, que, ao meu ver, é tão danosa como a machista. Esses simbolismos podem não se mostrar tão eficiente como gostaríamos (é importante deixar claro que repilo diversas “exigências” feitas pelos homens às mulheres), mas não deixam de ser uma conquista importante para todos.

A distância entre o homem e a mulher é tremenda, por isso, vocês se queixam tanto de nossa incompreensão. Mas nem toda consideração com data marcada é sinônimo de hipocrisia, tampouco qualquer data comemorativa singificará o mesmo que perda de tempo.

Pense bem na “corrente” que está propondo aos internautas. Não creio que seja saudável, tampouco útil na busca pelo suposto igualitarismo que você busca.

Abraços!

Comment by Rafael Motta

Rafael,

1 — O texto fala de discriminações no mercado de trabalho, violência doméstica, estupros, assassinatos e ataques psicológicos. São, obviamente, coisas horríveis. Você queria que eu falasse de violência, estupro, assassinato e discriminação de forma super feliz e contente? Só se eu tivesse louca, né? Assuntos amargos são abordados de forma amarga. Principalmente quando se é a vítima de tais injustiças, dã! Se você apanha com um sorriso no rosto, ok, mas nós não.

2 — Você está confundindo feminismo com femismo. Feminismo não é o equivalente feminino de machismo. Abra um dicionário, está lá: feminismo é a teoria que defende a IGUALDADE ENTRE OS SEXOS, não a subjugação do sexo masculino pelo feminino. Aliás, repare no logotipo deste blog. Tem um sinal de igual entre o homem e a mulher, não um sinal de maior (“>”). Se você acha que a igualdade entre os sexos é tão danosa quanto a subjugação de um sexo pelo outro, então sei lá, tu tá doido.

3 — A rosa representa SÍMBOLOS VELHOS de feminilidade, de como as mulheres “deveriam se portar”. A rosa é uma metáfora machista antiquíssima, que vem de bem antes do feminismo (como o texto aponta). Logo, tal simbolismo não é uma conquista. É irônico que, no dia internacional da mulher (data que representa a luta contra o machismo), as pessoas nos ofereçam o símbolo dos mitos contra os quais lutamos, querendo que nós nos sintamos elogiadas e nos conformemos a eles.

4 — Não somos contra a data 8 de março, como foi explicado aqui: http:marjorierodrigues.wordpress.com e aqui: http://rosaeradical.blogspot.com. A data SURGIU por causa do feminismo, ora! Não somos contra ela. Somos contra o que a mídia e a sociedade fazem nesta data.

5 — Julgamos que a corrente é mais do que saudável, pois fez algumas pessoas refletirem sobre questões que nós julgamos importantes. Concordar ou não são outros 500. Nosso objetivo era colocar tais assuntos em pauta, fazendo as pessoas pensarem e reverem seus conceitos. Numa democracia, a disseminação de idéias (desde que não sejam idéias carregadas de ódio contra algum grupo) não tem como não ser saudável.

6 — Se chamar a atenção para a desigualdade não é o que eu deveria fazer para defender a igualdade, então o que você sugere? Que eu fique quieta?

Comment by marjorierodrigues

Texto espetacular. Recebi de uma amiga. Vou difundir. Quanto ao Rafeel aí de cima… bem… ele é o reflexo da distorção tão bem abordada em seu texto.

Comment by Marcia Godoy

Olá! tentei afzer uma blogagem coletiva para o * de março com o Titulo: Celebrar o que?

Vou usar o seu texto no meu blog, pq ele relata exatamente o que vinha à minha mente!

Bjos!

http://rubraalma.blogspot.com/2010/03/blogagem-coletiva-100-anos-de-dia.html

Comment by Iony




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